terça-feira, 7 de junho de 2011

Filmes



Chemical Wedding de Julian Doyle

Apesar do roteiro frouxo de Julian Doyle e Bruce Dickinson (isso mesmo, o vocalista da banda Iron Maiden), o filme Chemical Wedding – ou Casamento Alquímico, referência ao manuscrito rosacruz do século XVII – vale por sua figura central: Aleister Crowley.

Crowley nasceu na Inglaterra e ficou conhecido por trazer no início do século XX um novo sistema da magia que ele chamava de Magick e uma nova concepção espiritual e moral, denominada em grego de Thelema, ou seja, Vontade.

O principal livro de Crowley, O Livro da Lei, que ele diz ter sido ditado por uma inteligência extraterrestre, Aiwass, traz como máxima aquela mesma proposição já conhecida de Santo Agostinho: “Faze tudo o que tu queres há de ser o todo da Lei. Amor é a lei. Amor sob Vontade”. Crowley se diz o profeta do novo Aeon de Hórus ou a Era de Aquário e traz um sistema de realização pessoal totalmente inovador.

Baseando-se na religiosidade egípcia (conhecimento adquirido com a Maçonaria, a Golden Dawn e a O.T.O.), no sistema de magia enochiano fundado por John Dee e Edward Kelly, Crowley trouxe mais beleza e atitude para o universo das ciências ocultas. Grande enxadrista e poeta inspirado, seus livros traduzem essa mecânica entre a exatidão e o êxtase poético.

Considerado o pior homem do mundo pela corte inglesa – sendo notícia constante dos jornais da época – ele buscava realizar o casamento alquímico (união com o Santo Anjo da Guarda segundo a tradição hebraica presente no manuscrito de Abramelin, o Mago, que tratava de magia sagrada inspirada nas lições de Abraão, o Judeu e que, em verdade, nada mais pode ser do que uma estória muito bem arquitetada pelo líder da Golden Dawn, MacGregor Mathers, que afirma ter traduzido para o inglês um original em francês encontrado na Biblioteca do Arsenal em Londres, apesar da Biblioteca afirmar que nunca houve semelhante exemplar entre seus livros), mas com um detalhe oriundo das escolas orientais: a Magia Sexual ou Tantra Yoga.

Entretanto, quando nos deparamos com os livros de Crowley de conteúdo ético – como The Message of Master Therion, Liber Librae, Liber Oz, The Law of Liberty, por exemplo – percebemos a forte presença de Nietzsche. De fato, em sua missa gnóstica (Ecclesiae Gnosticae Catholicae Canon Missae) várias personalidades são homenageadas, inclusive o velho Nietzsche. Alguém prestaria um grande serviço escrevendo sobre a influência de Nietzsche na obra de Crowley.

Seja como for, o filme reúne diversas informações sobre a vida de Crowley e num tom ora sarcástico e ácido ora hilário e despojado, consegue, ao menos e a despeito das bobagens de ficção científica que colocaram na trama, focar nossa curiosidade na vida e na obra desta figura extremamente original. Recomendo.

O link para download se encontra no Blog Laranja Psicodélica:
http://laranjapsicodelica.blogspot.com/2010/12/chemical-wedding-2008.html
 
.

Citações

Oh Grécia, espelho e corpo três vezes mártires, imaginar-te é restabelecer-te.

René Char

In: Hino em Voz baixa


A língua grega é mais do que a língua do começo: é o abrigo da origem.

Marlene Zarader


Para onde quer que eu viaje a Grécia me dói; cadeias de montanhas, arquipélagos, granitos escalavrados.

Seféris

In: À maneira deG. S.

Aqui, enquanto a antiga púrpura e cetro não devolvermos à Grécia, hão de todas as mães trazer seus filhos para beijar com lágrimas a poeira sagrada e dizer: Imitai, filhos, a gloriosa legião de Heróis.

Kálvos

In: A legião sagrada

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Citações

Esclarecimento significa a saída do homem de sua menoridade, da qual o culpado é ele próprio. A menoridade é a incapacidade de fazer uso de seu entendimento sem a direção de outro indivíduo. A preguiça e a covardia são as causas pelas quais uma grande parte dos homens, depois que a natureza de há muito os libertou de uma direção estranha (naturaliter maiorennes), continuem, não obstante, de bom grado menores durante toda a vida. É tão cômodo ser menor! Se tenho um livro que faz as vezes de meu entendimento, um diretor espiritual que por mim tem consciência, um médico que decide por mim a respeito de minha dieta, etc, então não preciso esforçar-me eu mesmo. Não tenho a necessidade de pensar, quando posso simplesmente pagar.

Immanuel Kant

In: Que é “Esclarecimento”?


Quando todos tiverem contemplado a nobre criatura, vestígio de alguma época já maldita, uns indiferentes, pois não terão possuído a força de compreender, mas outros, aflitos, e a pálpebra úmida de lágrimas resignadas se contemplarão, enquanto que os poetas desses tempos, sentindo reacenderem-se olhos amortecidos, seguirão para sua lâmpada, ébrio o cérebro, por um instante, de uma glória obscura, tomado pelo Ritmo e no olvido de existir numa época que sobreviveu á beleza.

Stéphane Mallarmé

In: O Fenômeno Futuro.


.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Michel Foucault

Assim, de Hegel a Marx e a Spengler, desenvolveu-se o tema de um pensamento que, pelo movimento em que se realiza – totalidade alcançada, retomada violenta no extremo despojamento, declínio solar – curva-se sobre si mesmo, ilumina sua própria plenitude, fecha seu círculo, reencontra-se em todas as figuras estranhas de sua odisséia e aceita desaparecer nesse mesmo oceano donde emanara; em oposição a esse retorno que ainda não seja feliz é perfeito, delineia-se a experiência de Hölderlin, de Nietzsche e Heidegger, em que o retorno só se dá no extremo recuo da origem – lá onde os deuses se evadiram, onde cresce o deserto, onde a tékhnê instalou a denominação de sua vontade; de maneira que não se trata aí de um fechamento nem de uma curva, mas antes dessa brecha incessante que libera a origem na medida mesma de seu recuou; o extremo é então o mais próximo.


In: As Palavras e as Coisas

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Soren Kierkegaard

A história celebrará os grandes homens, mas cada um foi grande pelo objeto de sua esperança: um engrandeceu-se na esperança de atingir o possível; um outro na esperança das coisas eternas – mas aquele que quis alcançar o impossível foi, de todos, o maior.




In: Temor e Tremor

 
.

Dante Alighieri

A tarefa própria do gênero humano, tomado na totalidade, é de pôr continuamente em ato toda a potência do intelecto possível, em vista, primeiro, da especulação, em vista da prática, e por via de conseqüência, depois.


In: Monarquia

 
 
.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Friedrich Nietzsche

Após esclarecida, determinada coisa deixa de nos interessar. O que queria dizer aquele deus ao aconselhar: “Conhece-te a ti mesmo!”? Significaria: “Deixa de te interessares por ti! Torna-te objetivo!”? E Sócrates? E o “homem científico”?


In: Para Além do Bem e do Mal

.

Walter Benjamin

Börne enxergava com os olhos de Baudelaire ao escrever: “Se se poupasse toda a força e a paixão que todo ano se desperdiça na Europa ao redor das mesas de jogo, isso seria suficiente para fazer um povo romano e uma história romana. Mas é assim: visto que todo homem nasce romano, a sociedade burguesa trata de desromanizá-lo, e com essa finalidade são introduzidos os jogos de azar, e de salão, os romances, as óperas italianas e as revistas elegantes”.


In: Sobre alguns temas em Baudelaire

Georges Duhamel

[O cinema] trata-se de uma diversão de párias, um passatempo para analfabetos, de pessoas miseráveis, aturdidas por seu trabalho e suas preocupações... um espetáculo que não requer nenhum esforço, que não pressupõe nenhuma implicação de ideias, não levanta nenhuma indagação, que não aborda seriamente qualquer problema, não ilumina paixão alguma, não desperta nenhuma luz no fundo dos corações, que não excita qualquer esperança a não ser aquela, ridícula de, um dia, virar star em Los Angeles.


In: Cenas da vida futura

.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

William Blake

Onde o homem não está, a natureza é estéril. A verdade nunca pode ser dita de modo a ser compreendida sem ser acreditada. É suficiente! ou Basta.

In: Provérbios do Inferno

Kóstas Ouránis

Hei de morrer numa tarde melancólica de outono, entre móveis estrangeiros, entre livros espalhados. Vão achar-me no leito: virá a polícia depois. Um homem sem história: assim eu serei sepultado.


In: Nostalgias

domingo, 8 de agosto de 2010

T. S. Eliot

Não sou nenhum profeta - e isso pouco importa; já vi tremer o meu instante de esplendor e vi o eterno lacaio agarrar-me a casaca, rindo sorrateiro, e bastará dizer que tive medo. E tinha valido a pena, depois de tudo isto, depois da geléia, das xícaras, do chá, entre porcelanas, a meio de qualquer conversa de nós dois, tinha valido a pena.


In: A canção de amor de J. Alfred Prufrock

Walt Whitman

Existo como sou, isso me basta: ninguém no mundo toma conhecimento, eu me sento contente;  e se cada um e todos tomam conhecimento, eu contente me sento.

In: Folhas das folhas de relva.

sábado, 31 de julho de 2010

Friedrich Nietzsche

Moderação na atividade – É preciso não querer fazer mais do que o nosso pai. Isso nos torna doentes.



In: A Gaia Ciência

.

Arthur Schopenhauer

Também contribui para o tormento de nossa existência, e não pouco, o impelir do tempo, impedindo-nos de tomar fôlego, perseguindo todos qual algoz de açoite. Somente não o faz com aquele que se entregou ao tédio.



In: Parerga e Paralipomena



.

domingo, 25 de julho de 2010

Friedrich von Schelling

Pode-se sem dúvida dizer: o Deus se entrega a esse vir-a-ser justamente para se por como tal, e isso é, sem dúvida, que se tem de dizer. Mas, assim que isto é enunciado, compreende-se também que, nesse caso, ou se tem de admitir um tempo em que Deus não era como tal (mas isso a consciência religiosa universal, mais uma vez, contradiz), ou se nega que jamais um tal tempo tenha sido, isto é, aquele movimento, aquele acontecer é explicado como um acontecer eterno. Mas um acontecer eterno não é um acontecer. Consequentemente, a representação inteira daquele processo e daquele movimento é ela mesma ilusória, e propriamente não aconteceu nada, tudo se passou somente no pensamento, e esse movimento inteiro era propriamente apenas um movimento do pensar.




In: História da filosofia moderna: Hegel.

.

Leon Tostoi

Então vocês pretendem que o homem não pode compreender por si mesmo o que é o bem e o que é mal; que tudo depende do meio, que o meio abafa... Pois, na minha opinião, tudo depende do acaso.



In: Depois do baile

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Rudolf Carnap

Talvez a música seja a mais pura forma de expressão das atitudes básicas porque ela é totalmente livre de qualquer referência aos objetos. A atitude ou sentimento harmonioso, que os metafísicos tentam expressar num sistema monístico, é mais claramente expresso na música de Mozart. E quando um metafísico dá expressão verbal à sua atitude heróico-dualística através da vida num sistema dualístico, não é por que lhe falta a habilidade de um Beethoven para expressar esta atitude num meio adequado? Metafísicos são músicos sem a habilidade musical.




In: Eliminação da metafísica através da análise lógica da linguagem

.

E. M. Cioran

O que irrita no desespero é sua legitimidade, sua evidência, sua “documentação”: é pura reportagem. Observe, ao contrário, a esperança, sua generosidade no erro, sua mania de fantasiar, sua repulsa ao acontecimento: uma aberração, uma ficção. E é nessa aberração que reside a vida e dessa ficção que ela se alimenta.

In: Silogismos da amargura


.

sábado, 10 de julho de 2010

Gottfried Leibniz

Nós próprios experienciamos um estado em que não nos recordamos de nada, nem temos qualquer percepção distinta, como quando caímos em delíquio ou ficamos prostrados num sono profundo e sem sonho. Neste estado a alma não difere sensivelmente de uma simples Mônada; porém, como este estado não é duradouro e a alma dele se liberta, ela é alguma coisa mais.



In: A Monadologia.

.